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Paulo e o dom de línguas - Proibir ou regular?


Em momento algum Paulo desautorizou o falar em línguas!

Por Tiago Rosas


1. Ele diz para que o que fala em línguas, ore para que possa interpretar (1Co 14.13). Não é deixar de falar em línguas, se não interpreta, mas falar em línguas ao mesmo tempo em que se acrescenta orações pedindo a Deus o dom de interpretar. Longe de desestimular ou subtrair um dom espiritual, Paulo sugere agregar outro dom! Estamos orando pedindo a Deus o dom de interpretação? A interpretação elevará a experiência do dom de línguas, visto que a moverá do campo da edificação meramente individual para a edificação coletiva.

2. Ele fala em "orar no espírito" e "cantar no espírito" (1Co 14.14,15), e ainda que Paulo não detalhe essa multiforme operação do Espírito pelo dom de línguas, está claro para nós que tanto a oração como o louvor podem ser oferecidos a Deus em línguas não aprendidas pelo crente. A Bíblia não traz nenhum exemplo de oração ou cântico em línguas (a menos que entendamos estas ocorrências nas línguas de Atos), mas as páginas da história da igreja, sobretudo dos avivamentos espirituais recentes, sobejam nestes registros claramente. "Falarão novas línguas" (Mc 16.17), prometeu Jesus aos que crerem. E nós cremos!

3. Ele mesmo falava abundantemente em línguas (1Co 14.18). E antes que alguém sugira que sejam de idiomas aprendidos que Paulo está falando aqui, sua declaração sobre a experiência pessoal com as línguas está dentro de um contexto de dons espirituais concedidos sobrenaturalmente pelo Espírito Santo, não aprendidos por métodos humanos comuns. Quando ele diz: "falo mais em línguas que todos vós", é de uma experiência carismática, não de uma habilidade linguística fruto de muito estudo. Paulo até podia ser poliglota, mas não é disso que ele está falando aqui.

4. Ele diz que quando os irmãos se reunirem para o culto, um tem louvor, outro tem doutrina, outro tem revelação, outro tem língua e outro tem interpretação. (1Co 14.26). Este é o culto genuinamente neotestamentário! Onde espera-se a livre ocorrência dos preciosos dons do Espírito, de tal modo que a doutrina (revelação canônica) não impede a revelação extraordinária (especial não-canônica), e os dons de língua e interpretação também têm seu lugar garantido. Se não há qualquer sugestão que o louvor ou a doutrina tenham cessado na igreja de Cristo, não há por que pensar que revelação, língua e interpretação tenham cessado! "Quando vos reunis... cada um tem...". É assim que deve ser!

5. Ele diz para que no culto público "falem dois ou três" (1Co 14.27). Algumas igrejas protestantes leram assim: "ninguém fale em línguas!". Um grande equívoco! Aqui Paulo estabelece uma proporção e ao mesmo tempo uma ordem para o falar publicamente em línguas. Com toda certeza o apóstolo não está estabelecendo um padrão numérico rígido e inflexível, pois ele mesmo sabia do que ocorreu em Pentecostes, quando num mesmo culto 120 pessoas falaram em línguas ao mesmo tempo (At 2), bem como de um grande número de pessoas na casa de Cornélio em Cesaréia que também falou em línguas ao mesmo tempo (At 10), e, pelas mãos do próprio Paulo, uns doze discípulos em Éfeso receberam o Espírito e falaram em línguas e profetizaram ao mesmo tempo (At 19). O Espírito não iria pela pena de Paulo desfazer o que Ele mesmo fez pelas mãos de Paulo algum tempo atrás! O Espírito Santo não corrige Suas próprias obras, e com toda certeza Paulo sabia que o Espírito que agiu tantas vezes no passado distribuindo efusivamente línguas sobre os crentes, poderia fazer o mesmo tantas vezes quantas quisesse, sobretudo em lugares que estão experimentando um poderoso e inaugural avivamento espiritual. Todavia, "falem dois ou três" é a forma regular, mas não inflexível, para adoração em línguas a nível público, de modo que o culto não seja desinteligente, impondo prejuízo na comunicação do Evangelho. Todavia, ignorar o contexto cultural das igrejas no Novo Testamento bem como o número de crentes que frequentavam regularmente as reuniões de culto em Corinto, e impor rigidamente o "falem dois ou três" para todo e qualquer contexto moderno, é simplesmente tornar este dom impraticável! Afinal, como regular esta ínfima quantidade máxima de crentes falando em línguas em congregações modernas cujo número de membros facilmente supera os 3 mil ou 5 mil crentes (há não poucas igrejas hoje que reúnem 10 mil crentes por culto)? Um ministério de "caçadores de línguas" teria que ser instituído na igreja para garantir que em cultos frequentados por centenas e milhares de pessoas - coisa não comum nos tempos apostólicos - apenas "dois ou três" falassem em línguas, e um após outro, e ninguém mais. Sugiro que aqueles que são tão dogmáticos e inflexíveis quanto ao "falem dois ou três", desprezando uma leitura contextual e cultural neste específico, usem da mesma inflexibilidade e dogmatismo nas seguintes palavras de Paulo dentro deste mesmo contexto: "As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja" (1 Co 14.34,35). O vento sopra onde quer!

6. Ele diz que na ausência de intérprete fale consigo mesmo e Deus (1Co 14.27). Não é o silêncio absoluto que Paulo está sugerindo aqui, pois ninguém pode falar consigo mesmo e Deus em total silêncio. Pelo menos não em línguas, que é um dom de elocução, onde, por definição, a vocalização se faz necessária. Ninguém "pensa em línguas". Dom de línguas são para serem faladas, não pensadas! O silêncio é em relação à igreja, não ao próprio falante ou a Deus. De tal modo que se o que fala em línguas não interfere no culto público, nem impõe prejuízo à adoração coletiva, então ele pode falar consigo mesmo e com Deus em línguas, seja numa oração ou num louvor.

7. Ele diz "não proibais o falar em línguas" (1Co 14.39). Fica claro, então, o compromisso de Paulo com a experiência perene do dom de línguas. Não há qualquer indício de que este imperativo negativo tenha sido removido ao final do primeiro século. O "não proibais" continua de pé para todos a quem a Palavra de Deus é dirigida, e isto porque o dom de línguas que é para edificação pessoal (no caso em que não há interpretação) e para edificação coletiva (no caso em que é acompanhado por interpretação), continua pelo Espírito tendo os mesmos efeitos na edificação supra racional dos crentes, uma edificação que ocorre não diretamente na mente (até porque o ser humano não é só massa encefálica!), mas diretamente no espírito do crente! Pentecostais e carismáticos estão altamente comprometidos com a edificação do ser por inteiro: espírito, alma e corpo!

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